Lá fora a vida verdeja e pula e grita
E nasce e cresce e morre
E mata e cura e tortura
E aquieta e adormece e agita.
Eu cá num quarto fechado
Sentado na cama
Balançando para lá e para cá
Lembrando o ritual de paz
De Manuel e Miúda!
É que quando crianças
Eles se sentavam numa pedra defronte do barreiro
Em cima das pernas
balançando para frente e para trás cantando:
Você perdeu um amor sem saber dar valor
Tu, tu, tu, tu ,tu . . .
Você perdeu um amor . . .
E repetiam inúmeras vezes este refrão
Que era um mantra!
Manuel não passou de criança.
Miúda cresceu uma altista incompreendida
E sofreu muito por causa disso!
Não conseguiram ensiná-la a ler, nem a escrever.
Bateram-na muito!
Chamaram-na de louca e meretriz
Porque aprendeu a oferecer o sexo aos “homens” e engravidou.
Teve o filho, mas o médico achou bom castrá-la.
Eu canto – você perdeu o amor sem saber dar valor . . .
Quando as amarguras da vida tentam roubar a minha paz de espírito.
Lembro de Manuel
Menino loiro com cachos de são joão menino e
Olhos grandes azuis
o quais uma febre incompreensível vestiu-se morte e os levou.
Lá fora a vida verdeja e pula e grita
Cá ela se acalenta nas lembranças
Banha em lágrimas minha alma amargurada e saudosa
De manuel e de Neta.
E lamentosa de Miúda
Que vive a amargurar a vida em meio aos leões de sua cor.
Lembro de Neta, menina recatada e tímida
Que obrigou-se ao celibato das freiras
Entregou-se aos afazeres da casa paterna
E não passou dos 41.
Uma taquicardia malvada e repentina se fez de morte e a levou.
Imaginem dois corpos idênticos
Um feminino e outro masculino
Assim éramos Neta e Eu.
Eu canto – você perdeu um amor sem saber dar valor . . .
porque peço paz aos/ e para meus amores que se foram.
Quando nos deparamos com as coisas incompreendidas da vida
Ou nos revoltamos contra elas
Ou cantamos feito Manuel e Miúda
A música do desvalor que damos à vida e aos amores
Que ela nos oferece.
MATIAS de Araújo, Jurandir – 2013.Ver mais
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